
O que a última Virada Cultural diz sobre nós
Fui ver uns shows na Virada Cultural de BH, onde moro, no sábado e no domingo, dias 23 e 24. No sábado, assisti ao show das meninas do Fat Family, homenageando Tim Maia. No domingo, voltei para ver o Olodum e, logo em seguida, Carlinhos Brown, numa apresentação afinadíssima com a Orquestra de Ouro Preto. Os shows foram uma delícia: todos fazendo a gente sacudir o esqueleto, tirar o pé do chão, dançar. Desta vez, não quis virar a noite. Fui para casa dormir e voltei no domingo. Notei que BH mudou muito, eu mudei também — e o mundo, mais ainda.
Se em outras viradas eu ficava até seis horas da manhã e acabava comendo uma broa de fubá com um pingado na lanchonete, desta vez voltei cedo e dormi o sono dos justos. No caminho de casa, fiquei pensando no que esta Virada Cultural de 2025 diz sobre a gente.
A primeira coisa que me veio foi uma saudade de quando a gente ainda se comia com os olhos. Olhei ao meu redor e percebi: ninguém mais se comia com os olhos, ninguém se paquerava, ninguém chamava para dançar, pedia telefone, beijo na boca, sarro. O Brown tocava “Já sei namorar”, “Amor I love You”. O Olodum embalava com “Avisa lá”, “Olodum pra balançar”. O Fat Family fazia a festa com “Um dia de domingo”, “Azul do mar”. Tudo para uma plateia que não sentia tesão, não queria amar, não se olhava, não flertava. Ali, as canções de amor não faziam sentido: pareciam cantadas em grego. De vez em quando, no meio de uma música suave, um grupo de dois ou três berrava desafinado: “Sem anistia! Sem anistia!”
Por um momento, no show de sábado, enquanto as meninas cantavam, lembrei de um show do Tom Zé que vi há alguns anos, na Guaicurus. Depois da apresentação, ofereci uma cerveja a um homem que estava com dois rapazes. Acabamos nós três bebendo Brahma, ouvindo blues e conversando na Rua Carijós. Hoje, cada papo que a gente puxa é monossilábico. O outro responde olhando para o chão, para o celular, já perdendo a paciência.
Percebi que a política está fritando os nossos miolos. Sofremos tanto com a pandemia, com os desgovernos de Bolsonaro a Temer, penamos de um jeito que já não conseguimos mais dançar uma música tranquilos, namorar ou fazer um amigo novo.
A multidão grita “Sem anistia”, mas logo depois joga no chão o papel do cachorro-quente, o pratinho do tropeiro, a lata de Xeque-Mate e o copo de água mineral, emporcalhando a cidade e transformando as ruas num lixão a céu aberto.
Comemoro, como todo mundo, os avanços: a literatura feminina bombando, uma multidão lutando contra o machismo, o racismo estrutural, o fim do bolsonarismo. Mas vejo, infelizmente, que tiramos os olhos do amor. Estamos adoecendo.
Belo Horizonte virou uma cidade triste, cheia de gente séria demais, deprimida, revoltada e irritadiça. Por isso, não deu vontade de virar a noite — não colou. Deu saudade de outra BH, de outros tempos, quando a gente sabia rir.
O que me confortou foi, sem dúvida, a música de Carlinhos Brown, Fat Family e Olodum. Enquanto chacoalhava o esqueleto, torcia para ter minha cidade de volta, para ver o sorriso de novo no rosto das pessoas.













